Uma leitura política de “Da Certeza” do filósofo Ludwig Wittgenstein Imprimir E-Mail
escrito por Pedro M. Farinha Gomes   

Neste artigo, apresentarei uma possível leitura política da obra Da Certeza, do filósofo Ludwig Wittgenstein. O objectivo último deste trabalho será encontrar uma estrutura formal para o modo como geramos juízos, certezas – crenças básicas, analisando a dependência dessa geração em relação a diversos corpus ideológicos que não nos pertencem e de cuja existência ou não temos consciência em absoluto, ou de que não nos apercebemos quer dos seus meandros quer da simples natureza das ideias que os constituem. Como diz o próprio Witttgentein na obra em análise: “Estará em meu poder aquilo em que acredito? Ou aquilo em que acredito inabalavelmente? (...)” (173)

Pretendo que esta exposição seja entendida de um ponto de vista meramente formal,  susceptível de preenchimentos concretos, quer a um nível político, quer a um nível estético, artístico e semiológico, em termos da apreciação dos signos literários e visuais que constituem  e em que se constituem os discursos de indivíduos, grupos humanos simples, sociedades ou civilizações. Para isso será necessário recorrer posteriormente a especialistas de diversas áreas. De referir também que as obras de Wittgenstein estão estruturadas em diferentes parágrafos numerados, e como tal os números que aparecerão a eles dizem respeito. Não se deve estranhar o facto de por vezes a mesma questão ser tratada em parágrafos muito distantes numericamente, porque é uma característica deste filósofo apresentar o seu pensamento de forma circular. Em resumo, podem assim resumir-se os temas tratados neste artigo:

 

1. A formação de um conjunto ou núcleo inconsciente de certezas ou crenças básicas, e, em consequência, de uma imagem do mundo: como são as certezas, o dizer ‘Eu sei’, alcançados.

2. A constituição da certeza por homologação social, pela pertença a uma comunidade, ou, a certeza advindo desse facto.

3. O nosso conjunto de certezas ou crenças básicas como um sistema de crenças. A dúvida.

 

1. Wittgenstein funda na própria estrutura biológica (cognitiva) do humano o natural estabelecimento de certezas (“É sempre graças à Natureza que alguém sabe qualquer coisa.” - 505). Estas não resultarão de um auto-convencimento, ou de uma determinação pessoal para a pesquisa, mas de um impulso natural, não reflexivo. De uma sedimentação progressiva, através da aprendizagem, e como tal através da participação num determinado todo social, numa determinada comunidade, linguística e cultural. Já no Tractatus se encontra uma afirmação que mostra como para Wittgenstein determinados elementos constitutivos do humano que habitualmente são entendidos num âmbito estritamente socio-cultural e conceptual (como a linguagem e o conjunto de certezas individuais) pertencem para Wittgenstein ao plano biológico, no sentido de que a sua natureza é de tal forma intrínseca ao nosso modo de ser que deverão ser considerados como “parte do organismo humano”:

 

Tractatus Logico-Philosophicus 4.002: “O homem possui a capacidade de construir linguagens com as quais pode expressar qualquer sentido sem ter nenhuma noção de como e do que significa cada palavra. – Tal como se fala sem se saber como os sons individuais são produzidos. A linguagem corrente é uma parte do organismo humano e não menos complicada que este”.

 

No Tractatus o exemplo é a linguagem, em Da Certeza será a constituição do conjunto de certezas ou crenças básicas. Poderemos começar por 144 para dar início à exposição concreta destas questões: “A criança aprende a acreditar num grande número de coisas. Isto é, aprende a actuar de acordo com essas convicções (...). Aquilo que permanece firme não o é assim por ser intrinsecamente óbvio e convincente; antes aquilo que o rodeia é que lhe dá consistência.” Em 159 temos de novo presente esta ideia:

 

Em criança aprendemos factos; por exemplo, que todos os seres humanos possuem um cérebro, e acreditamos neles. Acredito que existe uma ilha, a Austrália, com determinada forma, etc., etc.; acredito que tive bisavós, que as pessoas que se declaram meus pais eram realmente meus pais, etc. Esta crença pode não ter sido nunca expressa; mesmo o pensamento de que era mesmo assim pode nunca ter sido pensado.

 

Assim, o nosso sistema de crenças nem sequer é pensado ou susceptível sequer de ser colocado como objecto de pensamento – é um dado adquirido, um segundo pensamento que fundamenta o chamado pensamento livre.

 

E continua logo de seguida: “A criança aprende, acreditando no adulto (...)” (160);  “Aprendi uma enorme quantidade de coisas e aceitei-as na base de autoridade de homens (...)” (161);  “Em geral, considero verdade o que se encontra nos livros de estudo, de geografia, por exemplo. Porquê? Eu digo: todos estes factos foram confirmados uma centena de vezes. Mas como sei isto? Que provas tenho? Tenho uma imagem do mundo (...)” (162); “Uma criança poderia dizer a outra «Sei que a Terra já dura há muitas centenas de anos» e isso quereria dizer «Eu aprendi isso».” (165). E agora, um parágrafo fulcral: “A dificuldade é compreender a falta de fundamento das nossas convicções.” (166), já que “Acredito naquilo que as pessoas me transmitem de uma certa maneira. Deste modo, creio em factos geográficos, químicos, históricos, etc.. É assim que aprendo as ciências. Evidentemente que aprender se baseia em crer (...)” (170); “Aquilo que sei, acredito.” (177).

 

Deste modo, relativamente à natureza que têm as certezas em nós instaladas, Wittgenstein atribui esse estabelecimento não como o resultado de precipitação ou de superficialidade “mas como uma forma de viver (...)” (358). Em 235 esta ideia está também apresentada: “O facto de que há coisas que são ponto assente para mim não se radica na minha estupidez ou credulidade”. De facto, as certezas justificam-se como algo de inerente ao humano, algo que, do mesmo modo que a linguagem (como vimos na referência ao Tractatus), sendo o resultado de esquemas conceptuais, adquirem, pelo seu carácter de enraizamento em nós, um estatuto quase biológico. A certeza será assim concebida como “algo situado além de ser justificado ou injustificado; portanto como que uma coisa animal.” (359). Citando John Searle: ”Penso que algum do melhor trabalho da sua vida foi feito mesmo no fim, pouco antes da sua morte. Estou a pensar em particular em ‘On Certainty’. Portanto, vejo Wittgenstein nos seus últimos anos a direccionar-se para toda uma área de investigação a que chamo ‘o Background’, um conjunto de capacidades, simultâneamente biológicas e culturais, que tornam possível a nossa linguagem e o nosso comportamento (...)”.

 

2. A formação das crenças faz-se assim através da pertença a uma comunidade, a um todo social. Wittgenstein diz em 116 que em vez de se dizer ‘Eu sei’ dever-se-á dizer ‘É ponto assente para mim que...’,  mas ainda mais, e mais importante, diz: “(...) É ponto assente para mim e muitos outros que...”. Assim, a constituição das certezas dá-se através de uma homologação colectiva a um determinado conjunto de crenças. E deste modo, ao “levantar uma dúvida (...), o que entra concomitantemente em jogo é o uso normativo e habitual destas expressões, o uso sedimentado pela experiência colectiva e tornado canónico ao longo do tempo e extensivo ao outros membros da sociedade, e talvez da espécie.”

 

A um nível geral, a aprendizagem e o estabelecimento de certezas daí decorrente pode ser descrita tomando como analogia o cálculo aritmético. A aprendizagem é feita através da prática e não através da aprendizagem de uma regra: “Aprendemos a natureza do cálculo ao aprender a calcular.” (45) ; “Não falta nada, calculamos, de facto, de acordo com uma regra e isso basta. (46). Assim, a base das certezas será sempre algo que permanece inconsciente. Não existe nada de transcendente nessas certezas (47) porque não lhes procuramos o que as fundamenta (neste exemplo, a certeza do cálculo).

 

Pode igualmente fazer-se uma analogia  com o jogo de xadrez. No seu processo de aprendizagem, não se ensinam primeiro as peças e as regras, não aprendemos as peças e as regras independentemente, já que elas estão interligadas. As pessoas são postas a jogar e aprendem jogando. O jogo é aprendido em várias circunstâncias, em vários contextos. Em termos de aprendizagem e estabelecimento de certezas (de crenças) gerais, este far-se-á durante o normal processo de aprendizagem da criança, e também na fase adulta.

 

Deste modo de constituição das crenças, das certezas, de um determinado indivíduo resultará uma determinada visão do mundo. Apresentarei agora algumas passagens onde Wittgenstein fala explicitamente dessa mundividência – imagem do mundo (‘Weltbild‘, em alemão) - e que é apresentada como algo mitológico, como uma mitologia. É repetida também a analogia com a aprendizagem de um jogo: “Mas eu não obtive a minha imagem do mundo por me ter convencido da sua justeza, nem a mantenho porque me convenci da sua justeza. Pelo contrário, é o quadro de referências herdado que me faz distinguir o verdadeiro do falso.” (94); “As proposições que descrevem esta imagem do mundo poderiam pertencer a uma espécie de mitologia. E o seu papel é semelhante ao das regras de um jogo. E o jogo pode ser aprendido puramente pela prática, sem aprender quaisquer regras explícitas.“ (95).

 

3. É em 102 que Wittgenstein fala pela primeira vez de sistema: ”(...) Contudo, as minhas convicções formam de facto um sistema, uma estrutura”. É da natureza das nossas convicções, das nossas crenças, das nossas certezas, constituirem, no seu conjunto, um sistema. Segundo Wittgenstein, não é possível descrever o sistema formado por essas convicções (102) algo que aparece estar claramente enunciado em 471, não como uma impossibilidade, mas como uma grande dificuldade, isto é, a descrição e organização exacta de todo o nosso sistema de crenças (supomos, no entanto, que numa dada teoria, ou num dado quadro teorético científico, isso será possível): “É tão díficil encontrar o começo. Ou antes, é díficil começar no começo. E não tentar recuar mais”. Entendo por começo as proposições basilares ou fundacionais do nosso sistema de crenças, que nos implicam uma determinada mundividência. Algo que talvez seja sugerido em 110:”(...) Como se dar razões não chegasse ao fim alguma vez (...)”.

 

Será mais tarde, em 141, que Wittgenstein definirá com precisão o conjunto de convicções fundacionais como um sistema (de proposições, sendo que obviamente uma convicção será expressa por uma proposição): “Quando começamos a acreditar em qualquer coisa, aquilo em que acreditamos não é uma proposição isolada, é um sistema completo de proposições. (Faz-se gradualmente luz sobre o conjunto)”. Em 142: “Não são os axiomas isolados que me parecem óbvios, é um sistema em que as conclusões e as premissas se apoiam mutuamente.” E ainda em 225: “Aquilo a que me agarro não é uma proposição, mas um conjunto de proposições”.

 

Nos parágrafos 122 e 123 Wittgenstein defende que para que haja dúvida devem primeiro existir razões fundamentadas para duvidar e no parágrafo 115 diz claramente que “o próprio jogo da dúvida pressupõe a certeza”. Assim, será a partir dos estados de certeza de que descrevemos a sua constituição que se poderá efectuar o questionamento.

 

Em 117 coloca a questão da utilidade da dúvida, utilidade essa avaliada em termos práticos, na vida pessoal. Se a dúvida não se relacionar com o que tenha directamente a ver com a vida da pessoa, não terá lógica ter lugar. E também, mais genericamente, se nada disso resultar em concreto ou se nada for explicado.

 

Voltando a 115, introduz uma questão relacionada com um aspecto fundamental, resultante do facto do nosso conjunto de certezas se constituir num sistema, que é o facto de as nossas certezas, de todo o nosso sistema de convicções poder  desabar. Diz assim que “quem tentasse duvidar de tudo, não iria tão longe como se duvidasse de qualquer coisa”. Postula assim a necessidade de progressão gradual no jogo da dúvida, questionando por etapas determinadas certezas-convicções. Algo que é reforçado em 234, onde são apresentados diversos exemplos de convicções fundacionais: “Acredito que tenho antepassados e que todos os seres humanos os têm. Acredito que há várias cidades e, em termos gerais, nos principais factos da geografia e da história. Acredito que a Terra é um corpo na superfície do qual nos deslocamos e que não desaparece subitamente tal como qualquer outro corpo sólido: esta mesa, esta casa, esta árvore, etc..  Se pretendesse duvidar da existência da Terra muito antes do meu nascimento, teria de duvidar de todas as espécies de coisas que são ponto assente para mim”. Novamente, temos aqui a possibilidade de desmoronamento de todo o sistema de crenças. Concretizado em 512: “Não será que a questão é esta: «Então e se você tivesse de mudar a sua opinião, mesmo acerca das coisas mais fundamentais?» E parece-me que a resposta é: «Você não tem de a mudar. É isso justamente o que implica elas serem ‘fundamentais’»”.

 

Foi no parágrafo 144,  que comecei esta exposição, e com ele a terminarei, tentando com ele dar justificação à minha interpretação dos parágrafos 94 e 95:

 

“A criança aprende a acreditar num grande número de coisas. Isto é, aprende a actuar de acordo com essas convicções. Pouco a pouco forma-se um sistema daquilo em que acredito e, nesse sistema, algumas coisas permanecem inabalavelmente firmes, enquanto algumas outras são mais ou menos susceptíveis de alteração. Aquilo que permanece firme não o é assim por ser intrinsecamente óbvio e convincente; antes aquilo que o rodeia é que lhe dá consistência.”

 

Assim, o núcleo de proposições ou de crenças que nos fundam permanecerão firmes, enquanto que, no curso da nossa experiência quotidiana, outras, situadas  num nível mais superficial, serão revistas, ou substítuidas. Evidentemente, será o nosso núcleo de convicções, de crenças fundacionais, assim como a sua proveniência, que teremos que ser capazes de identificar, para nos podermos mais livremente determinar, e para podermos avaliar com maior exactidão os emissores de ideias que nos vão determinando. Depois, faremos como quando no uso habitual dos nossos julgamentos: ou as substítuimos, ou as revemos, ou as mantemos. Uma coisa é certa: “não chegamos (...) a nenhuma delas como resultado de uma investigação” (138). E também difícil e infelizmente,  a elas não chegaremos senão através de uma investigação pessoal.

 

Evidentemente, também, nunca poderemos realmente abolir, na totalidade, as crenças fundacionais dos nossos diversos sistemas de crenças. Caso isso acontecesse, dar-se-ia uma perda da identidade do sujeito.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

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KOBER, Michael, “Certainties of a world-picture: the epistemological investigations of On Certainty” in The Cambridge Companion to Wittgenstein, Hans Sluga, David G. Stern (edit.), Cambridge University Press, 1996.

 

LEITÃO, Maria do Carmo, Da Certeza – Ludwig Wittgenstein - # 467 a 515 – Do Ler ao Dizer, Do Dizer ao Pensar (conjunto de leituras introdutórias levadas a cabo pela autora com o objectivo de familiarizar os seus colegas professores do ensino secundário, aquando da introdução da obra no currículo do 12º ano de Filosofia).

 

MARQUES, António – O Interior -  Linguagem e Mente em Wittgenstein, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2003.

 

RODRIGUES, Adriano Duarte – Linguística e Comunicação – A Partitura Invisível – Para a abordagem interactiva da linguagem, Edições Colibri, 2ª edição, Lisboa, 2005.

 

SOARES, Maria Luísa Couto Soares – O que é o conhecimento? – Introdução à Epistemologia, Campo das Letras, Porto, 2004.

 

SUMARES, Manuel – Sobre ‘Da Certeza’ de Ludwig Wittgenstein – Um Estudo Introdutório, Edições Contraponto, Porto, 1994.

 

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